Ela me multou de manhã, e me salvou à noite Mas acontece o inesperado
Автор: Relatos de chofer
Загружено: 2026-01-13
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Tava ali na um meia três, botando pressão na subida, quando parei só um minuto pra deixar um palito doce descarregar. Um minuto, chofer... um minuto! Aí, vem ela, na moral, cara fechada, uniforme ajeitado e sem piedade no olhar. Mandou a caneta sem dó, como se fosse só mais um condenado na lista dela.
Mas o que eu não sabia, é que a mesma bota que me multou de manhã... ia segurar minha vida pela gola à noite.
C tá doido, chofer! A estrada muda tudo num piscar. E eu? Só queria empurrar o bruto no tapete preto e seguir na minha. Mas a vida... a vida jogou pesado.
E apois, chofer... Rapadura é doce, mas não é mole não.
A chuva batia fina no para-brisa do meu Scania R450 vermelho, lavando a madrugada como quem tenta apagar o peso da semana. Eu tava na cento e dezesseis, voltando do sul, batendo lata, sem carga, só eu, o bruto e o som do motor cantando baixo. Era noite de domingo, e já fazia uns bons quilômetros que eu só via farol no retrovisor — tudo escuro, tudo silêncio. Estrada vazia é calmaria... mas também é onde os pensamentos fazem mais barulho.
— Cê tá doido, chofer... — murmurei pra mim mesmo, sentindo o cansaço grudar nos ombros feito lona molhada.
O rádio P X chiava baixinho, só com uns “corujando” na escuta, e eu nem tava muito afim de modular. O dia tinha sido puxado, descarreguei areia doce lá em Joinville, e de lá vim tocando direto. Era só chegar no pátio da transportadora em São José dos Pinhais, puxar dois metros horizontais e amanhã cedo carregar novo.
Mas aí, o telefone tocou.
Barulho seco, direto. Era o esparadrapo, meu irmão mais novo, que rodava de Muriçoca lá pro Mato Grosso. Atendi no viva-voz, só no “fala, perneta”.
— Miguel... tu passou na balança do quilômetro 221? — ele mandou seco, voz de alerta.
— Passei sim, por quê?
— Q R M pesado lá. Disseram que o tapete preto tá escorregadio, e teve bicho grande virando na curva do viaduto. Uma carreta adesivada, parece.
Segurei firme o volante. O trecho que ele falou era tenso até com tempo seco. Com chuva fina, era sabão puro.
— Valeu, doutor. Tô na liga aqui, olho vivo.
— Chama na bota, chofer. Tô copiando. Qualquer coisa grita.
Desliguei e soltei o ar com força. A chuva engrossou, como se tivesse esperando a deixa. A estrada, que antes era só estrada, virou armadilha. O limpador de para-brisa fazia o serviço, mas a visibilidade começou a fechar.
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